Solitárias por natureza, onças-pintadas surpreendem ao agir em grupo no Pantanal
Registros inéditos no Pantanal revelam um comportamento surpreendente das onças-pintadas, tradicionalmente solitárias, que passaram a interagir em grupo diante de mudanças no ambiente e da presença de cercas elétricas, levantando novas reflexões sobre adaptação e conservação da espécie
Redação
No Pantanal Norte, no Mato Grosso, um comportamento raro chamou a atenção de pesquisadores e ambientalistas. Câmeras noturnas flagraram quatro onças-pintadas interagindo de forma coordenada próximo a um curral protegido por cerca elétrica. A cena contraria a ideia tradicional de que esses grandes felinos vivem exclusivamente de forma solitária.
As imagens foram registradas em uma área de pecuária extensiva, onde campos alagados, faixas de mata e pastagens dividem espaço. O grupo era composto por uma fêmea adulta, dois filhotes subadultos e um macho subadulto aparentado, revelando uma dinâmica social mais complexa do que o esperado para a espécie.
Os registros mostram que um dos felinos jovens tentou ultrapassar a cerca elétrica e recebeu um choque, recuando imediatamente. Após esse episódio, os outros indivíduos passaram a demonstrar cautela, evitando novas tentativas. Esse comportamento sugere um processo de aprendizagem social, no qual a experiência negativa de um membro influencia todo o grupo.
Além da interação com a cerca, as câmeras também flagraram as onças reunidas em locais de abate de presas naturais, como capivaras e guaxinins. Em vez de disputas agressivas, houve tolerância e compartilhamento do espaço, indicando possível cooperação na obtenção de alimento e reforço dos laços entre os indivíduos.
O estudo foi realizado em uma região marcada por conflitos entre humanos e fauna silvestre, onde a predação de gado frequentemente resulta em retaliações contra as onças. A instalação de cercas elétricas nos currais reduziu drasticamente os ataques, ao mesmo tempo em que estimulou os felinos a buscarem presas naturais.
Os pesquisadores destacam que a presença constante de gado nos habitats do Pantanal influencia o comportamento das onças desde cedo. Ainda assim, as observações mostram que estratégias de manejo adequadas podem reduzir conflitos e favorecer comportamentos mais naturais, sem eliminar a presença do predador.
Os resultados reforçam o valor das armadilhas fotográficas como método não invasivo de pesquisa. Além de comprovarem a eficácia das cercas elétricas, as imagens revelam uma faceta pouco conhecida da onça-pintada: sua capacidade de adaptação social em paisagens modificadas pelo ser humano, fundamental para a conservação da espécie.
O material foi elaborado por pesquisadores do Instituto de Mitigação de Problemas Ambientais com Comunidades Tradicionais e Onças (Impacto), e da Universidade Federal de São João del Rei (MG), além de membros do Instituto Pró-Carnívoros (SP). O Instituto Impacto é focado na convivência harmônica entre humanos pecuaristas e grandes felinos.
Essa matéria foi originalmente publicada pelo médico veterinário Paul Raad Cisa no site The Conversation, que reúne artigos redigidos por pesquisadores.
Cisa é mestre pelo Programa de Pós-graduação em Animais Selvagens da Universidade Estadual Paulista (Unesp), além de fundador e coordenador do Instituto Impacto.
A gravação entre 23h03min56s e 23h05min58s revela detalhes importantes do comportamento dos animais. O indivíduo mais jovem, identificado como ID3, se aproxima da cerca de forma curiosa e recebe um choque ao tocá-la.
Logo depois, o animal ID4 surge e emite um sibilo em direção ao primeiro, possivelmente como sinal de alerta. Em seguida, a terceira onça, ID5, observa o local, cheira a estrutura e decide recuar.
Por fim, a mãe, conhecida como Baia (ID2), aproxima-se com cautela e repete a postura cuidadosa. A continuidade da cena indica que os quatro animais estavam se deslocando juntos naquela noite.
