Lições do Sul para hoje e sempre
Muito triste o que aconteceu com os gaúchos em abril e maio de 2024. Inundação com prejuízos e mortes sem precedentes na história. Prejuízo material de bilhões, sem contar os estragos nas lavouras, o que comprometeu a vida de milhares de moradores, agricultores e pecuaristas.
Triste foi ver, quase todos os dias, cenas e histórias de resgates que arrancaram lágrimas. Animais, gente ilhada, pessoas chorando pela perda de alguém ou algum animal de estimação. Ao menos o gaúcho não ficou lamentando perdas materiais: “Vamos recomeçar” foi a frase mais ouvida por pessoas que perderam suas casas e lavouras. O choro e lamentação foram pelas mortes. Menos mal, pois isso mostra o perfil de batalhador do povo do sul.
Buscar os culpados pelas tragédias não fez parte do repertório do povo do sul. Na sua maioria são imigrantes italianos, alemães, polacos. Enfim, gente do velho mundo que veio para o Brasil com garra para construir.
Aqui na Grande São Paulo, quando ocorrem enchentes, o povo atingido tem frases prontas “Já não tinha nada e perdemos tudo” “Cadê o prefeito e governador”, “Quem vai me ajudar?” “Todo anos é a mesma coisa e ninguém faz nada”. Frases ditas por quem geralmente mora na beira de córrego ou baixadas que já foram várzeas de rios. Gente que desconhece as leis da natureza, ou, se as conhece, não vislumbram alternativa de moradia.
E a tragédia do Sul pode ser trazida como lição para nossa região do Alto Tietê.
Temos uma tragédia anunciada bem ali na várzea do Rio Tietê, na divisa entre Suzano e Itaquaquecetuba. Há um grande aterro naquele local que já está ocupando uma grande área de dissipação das águas do rio (que vem desde Salesópolis, Mogi, e atinge Suzano e Itaquaquecetuba após receber os rios Itaim e Guaió).
Um grande volume de água que a partir de agora terá menor área de dissipação, caso ocorra uma chuvarada fora do normal. Por conta de um aterro que promete ser esteira para a instalação de indústrias e criação de empregos. Mas, qual o custo desse sonho?
Ato semelhante, em Porto Alegre, a necessidade de criar área para indústrias e moradias culminou também com um aterro. Mapas de antes e depois de uma área da capital gaúcha mostram o avanço do homem alterando o ecossistema local. Assim como está ocorrendo no Balneário Camboriú, quando mandatários locais aprovaram o “aumento da praia” estendendo a faixa de areia sobre o mar.
Incursões que desrespeitam as leis naturais do Meio Ambiente estão por toda parte. Quem conhece a estrada Rio Santos deve perceber grandes construções existentes entre os morros e o mar. Construídas em penhascos e fixadas em rochas, obras luxuosas desafiam o poder de uma enxurrada que pode descer pelas encostas após chuvas intensas.
Assim, precisamos aprender e nos espelhar nos índios. Eles também, muitas vezes, deixam aldeias e vão morar perto de cidades mais “civilizadas”. A diferença é que eles sabem e conhecem o poder e fúria da natureza. Constroem suas casas em palafitas, alguns metros acima da superfície dos rios.
Eles jamais desviariam o curso de um rio, como aconteceu anos atrás no Rio Itaim entre Poá e Ferraz, fazendo uma curva de 45 graus sob os trilhos da CPTM. O resultado dessa aberração? Enchente no centro de Poá, pois o rio transborda na curva e segue pela Avenida Anchieta, alagando todo o centro de Poá. Não bastasse isso, mandatários do poder local aprovaram há muito tempo atrás construções que estrangularam o rio antes da ponte da Rua Marechal Floriano Peixoto. Ali também o rio transborda e invade todo o comércio local.
Devemos aprender quando caímos um tombo. Que aquela tragédia do Sul contribua, no mínimo, para uma conscientização de que o Meio Ambiente requer respeito e nenhuma alteração. Que o espaço das águas jamais seja reduzido ou invadido.
Silvio de Carvalho é Jornalista, Escritor, Cineasta e membro do Movimento de Defesa da Apa do Rio Tietê.
