Um novo coração para Faustão
Por Wilma Maria Moraes
Em agosto de 2023, o Estado de São Paulo ficou mais cinzento. O apresentador Fausto Silva, aos 73 anos, ingressou na fila da agonia, qual seja, a Fila Única de Transplantes do SUS – Sistema Único de Saúde.
Uma antiga melodia do Roberto, ‘As flores do jardim de nossa casa’ (1969) conseguiu traduzir a dor em poesia: as nuvens brancas se escureceram/e o nosso céu azul se transformou. O vento carregou todas as flores/ e em nós a tempestade desabou.
Entretanto…um novo coração chegou! Coração de atleta, de um jovem sonhador, para um homem de bem e do entretenimento também. Ainda assim, as redes sociais em polvorosa não deram sossego ao repouso do guerreiro, e uma avalanche de críticas, desrespeito e desamor tomou conta do País.
Lá pelos idos de 1968, uma situação peculiar aos corações salvadores fez toda a diferença e eu me lembro, eu me lembro: o impacto do primeiro transplante cardíaco no Brasil: um coração para João! 26 de maio de 1968.
Naqueles dias, o coração de uma garotinha com 10 anos de idade foi impactado também: ela ficou fascinada pelo assunto e não sabia explicar o porquê. Cursava o Ensino Fundamental I (antigo primário) no SESI. A professora Maria Eugênia de Camargo Trindade sugeriu uma redação intitulada “Se eu fosse uma flor”.
Escreveu algumas linhas, onde elucidava: Um dia, quando minhas pétalas caírem, gostaria de transferir todo o meu perfume para as outras flores. Escolheu ser uma rosa vermelha. E a redação causou burburinho no colégio, porque alcançou a nota máxima.
Não tinha condições, devido à idade, de explicar o que sentia. Vale dizer: um trabalho solidário que, outrora solitário, não sucumbiu. E em solo andreense iniciou uma trajetória em prol da Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes, em maio de 1968, quando o primeiro coração humano pulsou forte no peito de um receptor. E até os dias de hoje, ela continua nesta labuta, numa busca ativa incansável.
A hora da mudança chegou: Fausto Silva se tornou embaixador dos transplantes de órgãos e tecidos no Brasil. E definitivamente, a árdua jornada daquela garotinha (hoje com 67 anos), no intuito de inaugurar a Primeira OPO – Organização de Procura de Órgãos do Grande ABC, ainda será coroada de êxito.
E na porta de entrada daquele organismo de Utilidade Pública, a frase inspirada num jardim e escrita pela menina – anteriormente ao mestre Cartola perpetuar a doce melodia ‘As rosas não falam’ (1974) – ecoará pelos quatro cantos do mundo.
Quem sabe, nestes passeios pelos jardins, sabendo que as rosas não podem falar, ainda assim, elas poderão colaborar numa mudança de atitude, perfumando e perguntando: “Vamos doar perfume”?
Wilma Maria Moraes é a garotinha do texto. Primeira voluntária social da Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes no Brasil, ela é especialista em Projetos e Administração Hospitalar e presidente fundadora do Instituto de Projetos Educacionais e Sociais – IPES.
