A missão de Wilma Moraes: uma vida de fé e perseverança em defesa da doação de órgãos
Inspirada ainda na infância pelo primeiro transplante cardíaco realizado no Brasil, Wilma Moraes fez da doação de órgãos e das causas sociais uma missão de vida. Hoje, passados 58 anos do evento, ela continua defendendo o tema
Samuel Ferreira
Era 26 de maio de 1968 quando, sob o olhar de admiração do mundo, o Brasil anunciava a realização de seu primeiro transplante de coração em um ser humano, marcando um momento histórico para a medicina nacional.
O autor desse delicado procedimento, cujo aperfeiçoamento viria a salvar milhares de vidas ao longo dos anos, foi o médico Euryclides de Jesus Zerbini que, com o feito, se tornou o quinto cirurgião do mundo a realizar esse tipo de intervenção.
A cirurgia foi realizada no Hospital das Clínicas da USP, em São Paulo, no paciente João Ferreira da Cunha, conhecido como ‘João Boiadeiro’. Primeiro da América Latina, esse transplante entrou para a história.
Morador do interior de Mato Grosso, João Boiadeiro era um jovem de 23 anos. Após a cirurgia, sobreviveu por 28 dias – um prazo relevante na época, uma vez que o procedimento ainda era extremamente complexo e novo.
O feito contribuiu para que os médicos brasileiros pudessem avançar nessa área e abriu caminho para que, no futuro, milhares de pessoas recebessem um transplante com muito mais chances de recuperação.
Hoje, data em que se comemora os 58 anos desse acontecimento, nada mais justo do que ouvir a ativista social Wilma Maria Moraes, grande e religiosa defensora da causa ao longo de sua trajetória, entre outras demandas sociais.
Administradora dedicada, Wilma Maria Moraes, de 67 anos, é Pós-graduada em Gerenciamento de Projetos – PMO e Administração Hospitalar. Servidora pública aposentada por tempo de serviço, ela também é presidente-fundadora e voluntária do Instituto de Projetos Educacionais e Sociais – IPES, situado em Santo André.
Mídia Ambiental: Quando começou sua caminhada na área social e quais foram os principais acontecimentos que despertaram em você esse compromisso com as causas sociais?
Wilma Maria Moraes: O meu primeiro contato com a doação de órgãos e tecidos para transplantes, começou quando vi pela televisão a notícia de que um médico chamado Euryclides de Jesus Zerbini havia transplantado um coração. Um marco na história da medicina no Brasil.
Na época, eu tinha quase dez anos de idade. Quando a mídia falava sobre o assunto, deixava de lado até a boneca para ouvir a notícia de que um ser humano (João Boiadeiro), estaria vivendo por meio do órgão de outra pessoa. Fiquei fascinada pelo assunto e não sabia explicar o porquê. Cursava o Ensino Fundamental do SESI da Vila Pires, em Santo André (SP). Era o antigo curso primário.
A professora Maria Eugênia de Camargo Trindade sugeriu uma composição (redação) intitulada: “Se eu fosse uma flor”. Escrevi algumas linhas, onde explicava: “Um dia, quando minhas pétalas caírem, gostaria de transferir todo o meu perfume para as outras flores.” A redação causou burburinho no colégio, pois alcançou a nota máxima. Não tinha condições devido à idade, em definir o que sentia.
Mídia Ambiental: Como surgiu a ideia de fundar o Instituto IPES e quais são os principais projetos desenvolvidos pela instituição?
Wilma Maria Moraes: Pela necessidade de se transformar numa entidade do Terceiro Setor.
O Instituto de Projetos Educacionais e Sociais – IPES é uma Associação Civil de Assistência Social, sem fins lucrativos, fundada em 07 de julho de 2010. Nosso Conselho Diretor é formado por profissionais responsáveis, com foco em resultados satisfatórios na saúde e qualidade de vida do nosso público-alvo.
Alguns projetos foram criados com o intuito de ampliar discussões sobre temas recorrentes e de importância relevante e que, sobremaneira, requerem ser mais aprofundadas pelas diferentes camadas sociais. O IPES, além de realizar ações estratégicas em comunidades carentes, também suscita nos profissionais de saúde, atuantes e em formação, questões que exigem conhecimento e sensibilização, como o assunto de incentivo ao Consumo Consciente do Uso da Água e ações específicas, entre outras ações de Saúde, Saúde Ambiental, Educação para a Saúde, Gastronomia e Desenvolvimento Econômico, Social e Cultural.
Temas no tocante à Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes, Doação Voluntária de Sangue e Medula Óssea, o Combate à Violência Contra a Mulher e ao Uso do Cerol e Linha Chilena, etc. Com informação, orientação, encaminhamento e acompanhamento de casos às esferas competentes, entendemos também ser uma forma de proteção que gera justiça e cidadania.
Em tempo: Na trajetória diária abraçamos a Educação Pet, um projeto inovador no território nacional. Mas falaremos dele em detalhes numa próxima oportunidade, se Deus quiser.
E também apresentaremos o projeto: Amazonas, Sabores e Saberes, um mergulho na história indígena na região do Grande ABC e o aprendizado da verdadeira culinária nacional, a culinária da comunidade indígena.
Mídia Ambiental: Quais os maiores problemas enfrentados pela população e que precisam de mais atenção do poder público?
Wilma Maria Moraes: Educação de Qualidade; Saúde Pública; Segurança; Saneamento e Meio Ambiente; Moradia; Emprego e Renda; Lazer e Entretenimento.
Mídia Ambiental: Além das ações governamentais, qual a importância da conscientização social e da participação da sociedade na transformação dessas realidades?
Wilma Maria Moraes: O envolvimento e a sensibilização ativa da sociedade, com certeza são a base no que diz respeito à transformar a realidade e garantir políticas públicas legítimas. Sem eles, a administração pública perde a conexão com a população e opera sem o necessário controle democrático.
Mídia Ambiental: Durante a sua trajetória no trabalho social, existe alguma história ou experiência marcante que reforçou ainda mais sua missão de ajudar o próximo?
Wilma Maria Moraes: Sim, é claro! Coleciono histórias inesquecíveis que trouxeram fé, força e coragem neste caminho do voluntariado. Entretanto, quero destacar uma delas com o intuito de demonstrar que vale a pena seguir em frente quando parece que não há mais jeito para continuar vivendo.
É o caso do Faustão. A história dele é muito importante para o meu trabalho. Houve muitos questionamentos sobre como ele conseguiu o coração em tão pouco tempo. A prioridade para o transplante de órgãos e tecidos é a gravidade do estado de saúde do receptor na fila da agonia, qual seja: Fila Única de Transplantes do Sistema Único de Saúde – SUS.
Mídia Ambiental: Quais são os maiores desafios enfrentados por instituições sociais independentes para manter projetos e atender a população?
Wilma Maria Moraes: Os obstáculos críticos são a falta de verbas, a lentidão burocrática, a dependência de voluntários e a desconfiança pública. Tudo isso acaba comprometendo a missão de alargar o cronograma de ações das entidades sociais sérias. Outro gargalo é manter a equipe capacitada e oferecer suporte de qualidade e sem interrupções às comunidades vulneráveis.
Mídia Ambiental: De que forma empresas, profissionais e a própria comunidade podem colaborar mais com iniciativas sociais e projetos para atender a população?
Wilma Maria Moraes: Na realidade, é necessário uma atuação em rede, para produzir uma cooperação eficaz. Neste sentido, cada ator assume um papel adicional. Empresas oferecem recursos e gestão, profissionais aplicam conhecimentos técnicos e a comunidade traz a vivência local. Esta união consegue transformar ações assistencialistas em valorosos projetos de desenvolvimento social duradouros e estruturais.
Mídia Ambiental: Qual legado a senhora deseja deixar por intermédio do Instituto IPES e da sua atuação social?
Wilma Maria Moraes: A transformação das atitudes, levando o ser humano a reavaliar seus conceitos, direcionando-o ao comportamento inteligente, revertendo em melhorias na sua saúde e qualidade de vida, assim como de todos os seres viventes do nosso planeta.
Mídia Ambiental: Que mensagem a senhora gostaria de deixar para as pessoas que desejam iniciar trabalhos sociais ou contribuir para uma sociedade mais humana e solidária?
Wilma Maria Moraes: A frase inspirada por Deus, no mês de maio de 1968:
“Um dia, quando as minhas pétalas caírem, gostaria de transferir todo o meu perfume para as outras flores”.



João Ferreira da Cunha (João Boiadeiro), 1º transplantado no Brasil - Foto: Arquivo/Agência O Globo
O que dizem os números?
Ao longo dos anos, mais de 4,3 mil transplantes de coração já foram realizados no Brasil. Segundo o Registro Brasileiro de Transplantes, da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), somente entre 2016 e 2025 foram realizados 4.386 transplantes cardíacos no País.
No entanto, os números ainda são considerados insuficientes diante da demanda, apesar dos avanços da medicina e do crescimento. O resultado é o triste cenário de milhares de brasileiros na fila de espera por um órgão compatível.
Diante dessa realidade, os entes governamentais e a iniciativa privada, assim como a sociedade civil, devem ampliar as ações de conscientização junto à população, para uma sensibilização coletiva sobre o tema.
