Ouro Tóxico: o sangue da Amazônia que a Suíça lava como Ouro Reciclado
Ouro extraído ilegalmente de Terras Indígenas na Amazônia é “esquentado” com notas fiscais frágeis e escoa para refinarias suíças, que driblam controles rotulando-o como “reciclado” antes de chegar aos maiores bancos centrais do mundo
Por Redação
Segundo denúncia exclusiva do relatório “Ouro Tóxico” do Greenpeace Brasil, publicado em abril de 2025, o país montou uma máquina perfeita de lavagem de ouro ilegal. O documento rastreia o caminho do metal desde a cratera na Amazônia até os cofres dos bancos centrais e revela um sistema onde a ilegalidade não é exceção, é a regra.
Entre 2018 e 2022, as políticas de incentivo ao garimpo provocaram um aumento explosivo de 265% no garimpo ilegal dentro de Terras Indígenas. Foi uma política deliberada de invasão, que violou direitos originários e causou danos ambientais irreversíveis que seguem até hoje.
Mesmo com as operações de desintrusão do governo Lula a partir de 2023, o Greenpeace provou por satélite que o garimpo não diminuiu, apenas se deslocou. Entre 2023 e 2024, 4.219 hectares foram destruídos nas TIs Yanomami, Munduruku, Kayapó e Sararé, uma área maior que o Parque Nacional da Tijuca.
O detalhamento por território é ainda mais assustador. A TI Kayapó liderou a destruição com 1.019 hectares em 2023 e 704 em 2024, acumulando mais de 7 mil hectares no total. Já na TI Sararé, território Nambikwara de apenas 201 pessoas, o garimpo explodiu 93% e bateu recorde de 1.197 hectares em 2024, com atuação do Comando Vermelho.
O primeiro ponto de lavagem é ridículo de tão frágil. Até pouco tempo valia o princípio da boa-fé: uma nota escrita à mão onde o vendedor declarava a origem. Com essa nota, qualquer ouro virava legal usando uma PLG, permissão de 50 hectares para pessoa física ou 10.000 para cooperativa.
Como a ANM não fiscaliza, surgiram milhares de PLGs ociosas e os “garimpos fantasmas”, que vendem ouro mas não extraem na área autorizada. Segundo a UFMG, citada no relatório, pelo menos 15 toneladas de ouro entraram no mercado formal assim entre 2019 e 2023, tudo para esquentar ouro de Terras Indígenas.
Uma vez esquentado, esse ouro vai para São Paulo e Rio de Janeiro, onde é vendido livremente a bancos e joalherias de luxo. São Paulo, segundo o relatório, é considerado estado de alto risco não por extrair, mas por ser o centro de lavagem. Na origem, em Boa Vista, a Rua do Ouro compra sem nota fiscal.
Em 2024, o Brasil exportou 61,567 toneladas de ouro no valor de mais de US$ 3,9 bilhões para o mundo. Cerca de um quarto, 23%, provém da Amazônia Legal, em particular do Mato Grosso. E embora existam áreas legalizadas, o relatório alerta: o risco de ser ilegal persiste e é máximo.
A prova da fraude está nos números internacionais. Em 2022 a Suíça importou 67% a mais de ouro do que o Brasil declarou ter exportado, em 2023 foram 62% a mais. Isso representa um buraco de 9,7 toneladas em 2022 e 8,7 toneladas em 2023 que simplesmente apareceram na Suíça.
No centro do esquema está a Suíça, país sem nenhuma mina de ouro mas com quatro das sete maiores refinarias do mundo. O relatório lembra o passado controverso: na Segunda Guerra, bancos suíços compraram 3/4 do ouro nazista saqueado. Hoje, refinam e recarimbam qualquer ouro como “ouro suíço”.
O truque mais cínico é a rota dos Emirados Árabes. Em 2024 a Suíça importou 2.008 toneladas de ouro, sendo 155,8 toneladas só dos Emirados. Desse total, mais de 99% foi classificado como “ouro reciclado”, rótulo que permite que ouro recém-extraído ilegalmente seja falsamente rebatizado como sustentável.
Tudo isso é alimentado por uma corrida financeira sem precedentes. O ouro teve em 2024 seu melhor desempenho desde a virada do milênio, com alta de 44% no preço. O metal virou proteção contra inflação e guerras, e quanto mais vale, mais a Amazônia sangra.
O destino final desse ouro tóxico são os cofres mais respeitados do mundo. Os bancos centrais compraram 1.045 toneladas só em 2024 e detêm hoje mais de 35.000 toneladas, um quinto de todo ouro já extraído na história. EUA detém 8.133 toneladas, Alemanha 3.351, Suíça 1.039.
Na outra ponta, o custo humano é devastador. O relatório aponta 94% das importações de ouro da UE do Brasil em 2023 associadas a alto risco de ilegalidade. Na TI Munduruku, pesquisas confirmaram contaminação por mercúrio em mulheres e crianças, além de desmatamento, malária e perda de biodiversidade.
A COP30, realizada em Belém entre 10 e 21 de novembro de 2025, já passou e foi uma oportunidade histórica perdida no coração da Amazônia. O evento que deveria ter conectado clima e proteção da floresta terminou sem medidas concretas para barrar o fluxo de ouro manchado de sangue.
O Greenpeace exige o óbvio: fim definitivo da boa-fé, sistema eletrônico de rastreabilidade, publicação dos nomes de fornecedores e inclusão da Suíça na lista CAHRA de zonas de alto risco da UE. Enquanto isso não acontece, cada barra de ouro suíço pode estar guardando dentro dela um pedaço da Yanomami.
